E dás por ti a viver numa era de extinção em massa. O que já sabemos sobre a extinção em curso, e o poder que continua nas nossas mãos.
Aqui estão os números verificados, quem decide o que se passa no território e uma chave prática para usar quando a emergência chega ao lugar onde vivemos. A crise do clima, a perda de biodiversidade e a corrida da água para os data centers fazem parte do mesmo processo, e beneficiam as mesmas contas bancárias.
Como usar
Podes ler tudo de seguida ou ir direto à chave da emergência se tens um caso em mãos. Cada número tem fonte no fim. Copia, fotocopia, lê em voz alta numa assembleia.
Achavas que isto ia começar com uma história, uma imagem, talvez um poema. Vai começar com números, porque em 2025 e 2026 os números deixaram de ser profecia e passaram a ser o tempo em que vivemos, medido em vidas, em colheitas perdidas, em ruas debaixo de água. Não há aqui um "lá fora" de onde observar isto com distância confortável. O clima não é uma paisagem que vês pela janela. És parte dele enquanto lês esta frase, a respirar o mesmo ar que está a aquecer.
2025 foi o terceiro ano mais quente alguma vez registado, atrás de 2024 e 2023. Os últimos três anos foram, em conjunto, os primeiros a ultrapassar em média o limiar de 1,5 °C do Acordo de Paris.
Em maio de 2026 o Observatório de Mauna Loa registou o valor mensal mais alto de sempre. O CO₂ acumula-se hoje a um ritmo cerca de três vezes superior ao dos anos 1960.
Metade da superfície terrestre registou em 2025 mais dias de calor extremo do que a média histórica, uma condição que mata.
A maior parte do calor extra retido no sistema terrestre é absorvida pelos oceanos. Ao aquecerem, absorvem cada vez menos CO₂: a solubilidade do gás diminui com o calor.
Ondas de calor recorde percorreram a Europa, a Ásia, a América do Norte, não ao mesmo tempo, mas como se fossem o mesmo acontecimento a repetir-se em sotaques diferentes. Incêndios devoraram território em Espanha, no Canadá, no sul da Califórnia, e devolveram à atmosfera o carbono que traz mais calor, que traz mais fogo. Um ciclo que se alimenta a si próprio não precisa de vilão à porta: já cá está, e somos nós que lhe damos corda todos os dias que adiamos. As florestas e os solos, castigados pela seca, vão perdendo a capacidade de nos ajudar a respirar. Quanto mais aquecemos o planeta, menos ele consegue travar o aquecimento seguinte. A Terra também fica sem fôlego.
Nada disto fica a flutuar em gráficos. Desce até ao preço do tomate no supermercado, ao seguro que sobe sem aviso, à prestação da casa, a quem é obrigado a sair da sua terra e a quem a câmara decide, ou não, indemnizar. Há coisas demasiado grandes para caberem num só olhar. Nunca as vês inteiras, sentes sempre uma fatia delas, e desta vez a fatia chegou-te às compras da semana.
Não estamos a ver isto de fora. Estamos dentro, e é aqui dentro que se age.
Chamemos-lhe pelo nome certo, já que aqui ninguém tem paciência para eufemismos. A crise do clima não caiu do céu nem foi um erro coletivo distribuído por igual. Nasceu de um modelo que, há séculos, decidiu que a terra, a água e o trabalho das pessoas eram matéria-prima a esgotar, não vida a partilhar.
A extração em grande escala nasceu com a colonização. Impérios europeus construíram economias inteiras à volta da prata, do açúcar, do algodão, da borracha e do trabalho escravizado, e usaram a riqueza de continentes inteiros para financiar fábricas noutros. A Revolução Industrial não mudou a regra, só trocou de fornecedor: ouro e especiarias por carvão e petróleo. Continua a ser sempre a mesma divisão entre quem extrai e quem paga a conta, só muda a embalagem.
O Carbon Majors Report, do investigador Richard Heede, mostra que apenas cem produtores de combustíveis fósseis e cimento estão ligados a mais de 70% das emissões industriais de gases com efeito de estufa desde 1988. Reparem no que isto quer dizer: não foi a humanidade inteira, num assomo coletivo de descuido, que nos trouxe até aqui. Foi um punhado de empresas e Estados que sabiam do risco desde os anos 1970 e 1980, pelos relatórios dos seus próprios cientistas, e escolheram financiar campanhas de dúvida em vez de mudar de rumo.
Empresas ligadas a mais de 70% das emissões industriais globais de gases com efeito de estufa desde 1988.
Década em que relatórios internos da própria indústria fóssil descreviam o aquecimento que hoje medimos.
Durante milénios, muitas sociedades trataram bosques, águas e solos como bens de todos, com regras e limites passados de geração em geração. Aqui chamávamos-lhes baldios. A ideia de que a natureza é uma reserva sem fundo, pronta a ser gasta, não vem escrita em nenhum gene nosso. Vem de uma história concreta, muitas vezes imposta à força, e ainda hoje é defendida sobretudo por quem lucra com ela.
Sair disto não é trocar uma fonte de energia por outra e ficar tudo na mesma com painéis solares em vez de chaminés. É acabar com a ideia de que se pode crescer sem fim num planeta que tem fim, e isso vale mesmo quando a extração vem pintada de verde: mega-central solar dentro da Rede Natura, mina de lítio "para a transição", pedreira que dá emprego a doze pessoas e tira água a trezentas.
Enquanto vamos contando graus, há uma segunda perda a acontecer ao lado, com muito menos atenção: a vida selvagem a esvaziar-se. Muitos cientistas já lhe chamam pelo nome que lhe cabe, a sexta extinção em massa da história da Terra.
Queda média na abundância das populações de vertebrados selvagens monitorizadas entre 1970 e 2020. O que mais preocupa a comunidade científica não é a extinção total de espécies: é o colapso do número de indivíduos, que fragiliza redes ecológicas inteiras antes de qualquer espécie desaparecer oficialmente.
Estimativas publicadas entre 2024 e 2025 colocam a taxa atual de extinção entre cem e mil vezes acima do ritmo considerado natural pelo registo fóssil.
Espécies em risco de perda até ao final do século, caso as tendências atuais não sejam revertidas.
Honestidade científica
Há cientistas que contestam a expressão "extinção em massa" no sentido geológico estrito, por as taxas atuais ainda não atingirem a escala das cinco grandes extinções do passado. O que ninguém contesta é o colapso de abundância: documentado, mensurável e em curso.
Destruição de habitat pela desflorestação e pela agricultura industrial, pesca a mais, comércio ilegal de animais, poluição química, o próprio aquecimento. Tudo isto ao mesmo tempo, e nenhum sistema vivo aguenta uma pressão destas para sempre. As causas não são nenhum mistério por decifrar. O que existe é resistência a travá-las, porque travá-las mexe com o dinheiro de quem lucra.
Ver o clima como parte do mesmo corpo vivo muda a forma de julgar as soluções. Não chega limpar as emissões de uma central se ao mesmo tempo se corta floresta, se gasta o solo e se esvazia o mar. Ou se trata tudo em conjunto, ou o que se está a fazer é só mudar o problema de sítio, e ele volta, disfarçado de solução.
Estamos dentro da teia, não à frente dela.
Os dados dizem o que está a acontecer, mas não dizem como viver com isso. Para essa parte há trabalho feito, e reconhecido pela academia, sobre clima, bens comuns, economia e as histórias que contamos sobre a Terra.
Em A Vida das Plantas e Metamorfoses mostra que respirar já é misturar-se. O ar não é um cenário à nossa volta, é o mesmo corpo que todos os vivos partilham. Não há "ambiente" separado de nós, há mergulho. Toda a vida da Terra é a continuação de uma só vida, que vai mudando de forma.
Chamou "hiperobjetos" às coisas que nos ultrapassam em tamanho e em duração: o clima, o plástico, a radioatividade. Estamos dentro delas, e por isso a ideia de "salvar o planeta" visto de fora não funciona. A ecologia começa quando deixamos de esperar consolo.
Em Braiding Sweetgrass junta botânica e conhecimento indígena: o que recebemos da terra pede algo de volta. Não é stock, é troca. Agradecer, aqui, é uma forma de política.
Staying with the Trouble: ficar com o problema em vez de fugir para a fé na tecnologia ou para o gozo do fim. Fazer família fora do sangue e fora da espécie, porque ninguém se salva sozinho.
O Cogumelo no Fim do Mundo segue um cogumelo em florestas destruídas para mostrar como a vida, e também a economia, se refazem nas ruínas, em arranjos frágeis e coletivos.
Provou, com décadas de trabalho de campo, que grupos organizados geram melhor a água, o pasto e a pesca do que o mercado ou um Estado distante, desde que tenham regras próprias e poder real de decidir. É a base científica da autonomia local.
Defende há décadas que comer com autonomia e proteger a diversidade são a base da justiça climática, contra a monocultura e a dependência de químicos. A semente como bem comum, não como patente.
O Movimento Cinturão Verde plantou dezenas de milhões de árvores em África, juntando reflorestação, direitos das mulheres e participação política. Árvores e liberdade no mesmo gesto.
Coautora de Limites do Crescimento (1972). Mostrou com modelos que o crescimento material não pode continuar para sempre num planeta com fim. Meio século depois, os dados seguem a curva que descreveu.
A Economia do Donut: um espaço seguro entre um mínimo social e um limite ecológico. Uma economia que troca a pergunta "quanto cresce?" pela pergunta "quem fica de fora?".
Reúne a evidência de que separar crescimento do PIB e uso de recursos não está a acontecer à escala nem à velocidade necessárias, e propõe reduzir o consumo material nos países ricos de forma planeada, com redistribuição.
Documentou como o choque e a catástrofe servem para avançar privatizações, e porque é que o clima é, antes de tudo, uma disputa sobre poder e propriedade.
Ideias para Adiar o Fim do Mundo: para muitos povos o fim do mundo já aconteceu, mais de uma vez. Adiar o fim é contar outras histórias e recusar a ideia de humanidade que se separou da Terra.
Perguntou onde é que aterramos: de que território dependemos para viver e quem o está a tornar inabitável. A política do ambiente começa nessa descrição concreta.
O Trabalho que Reconecta ajuda grupos a atravessar o luto pelo que se perde sem ficarem parados, passando da dor para o que se faz em conjunto. Sem esta parte, poucas lutas duram dez anos.
Mostraram que explorar a natureza e não pagar o trabalho de cuidar, feito sobretudo por mulheres, são a mesma conta. Não há mudança ecológica sem repartir o cuidado.
Achas estranho pôr catorze pessoas tão diferentes na mesma sala, uma bióloga, uma filósofa francesa, um economista com um Nobel, uma antropóloga a seguir cogumelos por florestas destruídas? Eu também acho. E é exatamente por não concordarem em quase nada que vale a pena ouvi-las todas ao mesmo tempo. Só há um ponto onde tropeçam umas nas outras sem se terem combinado: nenhuma acredita que se sai desta crise só com mais tecnologia dentro da mesma economia de sempre. E todas, à maneira delas, dizem a mesma coisa estranha. A vida não é uma coisa que se possui. É uma coisa de que se faz parte.
Se não dá para crescer sem fim num planeta que tem fim, a conta é simples de fazer, mesmo que ninguém goste do resultado: o que fica no lugar disso? Uma das respostas mais discutidas hoje, entre economistas e movimentos de rua, chama-se decrescimento, e já assusta gente antes sequer de ser explicada.
Decrescimento não é pobreza planeada, por muito que o nome assuste. É reduzir de forma justa o consumo de materiais e de energia nos países mais ricos, repartir melhor o que já existe, e trocar a régua com que medimos se vale a pena: saúde, tempo, vizinhança, água limpa, em vez do Produto Interno Bruto, que nunca perguntou a ninguém se estava feliz.
| Modelo extrativista dominante | Proposta regenerativa |
|---|---|
| Crescimento do PIB como medida de sucesso | Bem-estar coletivo e limites ecológicos como bússola |
| Obsolescência programada e consumo acelerado | Durabilidade, reparação e economia circular |
| Propriedade privada e acumulação individual | Bens comuns e gestão partilhada de recursos |
| Hierarquia entre humanos e natureza | Reciprocidade e interdependência com os ecossistemas |
| Decisão tomada longe, por quem não vive no lugar | Decisão de quem lá vive, com informação e poder |
Sustentabilidade, no melhor dos casos, é não piorar mais depressa. Há práticas que vão mais longe e devolvem solo, água e vida ao território: rotação e pousio, pastoreio bem feito, sebes e árvores nas parcelas, compostagem, recuperação de linhas de água, reparar e reutilizar em vez de comprar outra vez. Nada disto é novidade, é conhecimento antigo, só que agora medido com instrumentos que confirmam o que já se sabia.
Uma proposta em disputa
O decrescimento é uma das propostas em debate, não a única, e não há consenso entre economistas. Outras defendem que a inovação e a eficiência conseguem separar crescimento e impacto ambiental. Até hoje, os dados que mostrariam essa separação a nível global continuam poucos.
Há uma frente de extração nova, e esta nem se esconde. Repara nisto: cada resposta que um chatbot escreve tem um custo físico, em água, eletricidade e terreno. Essa conta é sempre paga nalgum lugar, e esse lugar tem nome, aquíferos, linhas de alta tensão, contas de luz de quem mora ao lado da máquina.
Litros consumidos apenas pelos data centers norte-americanos, volume comparável à procura anual de toda a cidade de Nova Iorque.
Campos de futebol de área equivalente ocupada, e cerca de mil milhões de litros de água, segundo estimativa de 2026 do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.
Consumo dos data centers a nível global, em crescimento a cada geração de processadores.
Parte de toda a eletricidade do país já consumida por data centers.
No Chile há aquíferos a caminho do esgotamento. No México e nos Estados Unidos, moradores enfrentaram novos centros de dados em zonas onde a água já escasseava, e ganharam alguns desses braços de ferro. Em Portugal a mesma lógica veste outra roupa: mega-centrais solares dentro da Rede Natura, minas de lítio ao lado de aldeias, centrais de biometano a poucas centenas de metros das casas.
A água e a energia são só metade da conta. A outra metade é política, e essa não aparece na fatura. Sete das maiores empresas de tecnologia e inteligência artificial gastaram cerca de 50 milhões de dólares a fazer pressão junto do poder federal norte-americano só nos primeiros nove meses de 2025, quase 400 mil dólares por cada dia de sessão do Congresso, segundo a organização Issue One. Ao mesmo tempo, comités financiados por essas mesmas empresas entraram direto nas campanhas eleitorais.
Isto não é recusar a tecnologia. Não é isso, nunca foi isso. É recusar que a conta continue escondida do lado de fora do ecrã. Quem levou minérios das colónias e queimou petróleo sem nunca contabilizar o dano, tira hoje água de aquíferos frágeis e capacidade de decidir das pessoas, sem pedir licença, sem apresentar contas, com a mesma cara de sempre.
Em novembro de 2025, a Conferência do Clima da ONU foi pela primeira vez até à Amazónia, para Belém, no Pará. Não foi acaso. Foi levar a mesa de negociação para dentro de uma das florestas que mais decidem, sozinha, o clima do planeta inteiro.
Ao fim de duas semanas, 195 países chegaram a consenso e aprovaram o Pacote de Belém, 29 decisões, no décimo aniversário do Acordo de Paris. Entre os compromissos:
O que ficou de fora, e não por acaso
O texto final não trouxe nenhum compromisso obrigatório de abandono dos combustíveis fósseis. Foi o ponto mais disputado: dezenas de países defenderam-no, países produtores travaram-no, e a indústria do petróleo esteve nas negociações com delegações próprias. O secretário-geral da ONU, António Guterres, admitiu que a distância entre onde estamos e o que a ciência pede continua demasiado grande.
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, disse que Belém não devia ficar na memória como o fim de uma conferência, mas como o início de uma década de viragem. É uma frase bonita para dizer em Belém, com toda a gente a aplaudir. Lá fora, o gelo continua a derreter ao seu próprio ritmo, que não é o ritmo de nenhuma cimeira.
Nenhum futuro está fechado. Mas repara, já não estão todos igualmente abertos. Cada ano que passa sem cortes a sério tira uma porta do corredor, não todas de uma vez, uma de cada vez.
Aquecimento até ao fim do século mantendo as políticas atuais: eventos extremos generalizados, deslocação em massa de populações costeiras, colapso de ecossistemas inteiros.
Compromissos nacionais totalmente implementados. Muito acima do limite de segurança, mas significativamente melhor do que a inação.
Exige cortes profundos e rápidos já nesta década, com regeneração massiva de ecossistemas capazes de voltar a absorver carbono. A ultrapassagem temporária deste limiar é já considerada muito provável: a questão passou a ser por quanto tempo, e com que intensidade, ficamos acima dele.
A diferença entre estes três números não é destino, é o resultado de decisões que ainda vão ser tomadas, ou adiadas, em governos, em empresas, em assembleias de freguesia. Prever uma extinção não é aceitá-la. Só quer dizer que o prazo encurtou, e que cada decisão tomada aqui perto pesa agora mais do que pesava.
A atmosfera não negoceia. A política negoceia, e é aí que entramos.
Funciona como as chaves de identificação usadas na biologia: em cada passo, duas opções. Responde ao que se passa à tua porta e chegas ao caminho que serve para o teu caso, com os meios que existem em Portugal.
Diante de números destes é normal sentir que não há nada a fazer, sozinho. E não há mesmo, sozinho. Isto não se decide entre a pessoa e o sistema, como se fossem dois lados de uma mesa. Precisamos dos dois, em círculos que se vão abrindo um a seguir ao outro, sabendo que o círculo de fora pesa sempre mais do que o de dentro.
A esperança não é a convicção de que algo vai correr bem, mas a certeza de que algo faz sentido.
Václav HavelConvite
Isto não se resolve com um herói. Também não se resolve com o consumidor perfeito, esse que nunca existiu e que só serve para nos manter ocupados a olhar para o saco do lixo em vez de olhar para quem decide. Resolve-se com muita gente ligada entre si, capaz de dizer em voz alta quem extrai, quem lucra, quem paga, e de decidir em conjunto como se quer viver aqui.
Informação junta, dita em voz alta, no mesmo lugar, é poder. É para isso que este mapa existe. Para que nenhum caso fique sozinho, como se fosse só dele, quando na verdade é de todos nós, ao mesmo tempo.
Verificação
Cada número desta edição vem de instituições científicas, relatórios públicos ou obras revistas pela academia. Onde a ciência ainda discute, fica dito no texto.